Memorial do Ciclismo em Portugal

Breve história da UVP-FPC:

A história do ciclismo em Portugal reparte-se por três capítulos, o primeiro dos quais vai desde o lançamento do primeiro veículo de duas rodas, sua evolução e aperfeiçoamento, às primeiras manifestações competitivas, e à criação de improvisados velódromos por todo o país, seguindo-se um segundo capítulo com a fundação da União Velocipédica Portuguesa, em 14 de Dezembro de 1899, e por fim a passagem a Federação Portuguesa de Ciclismo.

Com a bicicleta no seu estado primitivo, o ciclismo despontou na via pública citadina graças ao espírito criativo de Artur Seabra, que construiu uma tosca máquina de madeira, com a qual foram dados os seus primeiros passos (era impulsionada com os pés), na cerca do Hospital de Rilhafoles.

Primeiras manifestações públicas do ciclismo:

Nessa fase embrionária, na era dos “celeríferos” e “draisenes”, com Artur Seabra e Herbert Dagge no papel de precursores do ciclismo em Portugal, despontaram muitos praticantes, de entre os quais se destacaram particularmente Eduardo Miching, vencedor, em Espanha, dos Campeonatos da Corunha e de Vigo, José Diogo de Orey e o histórico José Bento Pessoa, que venceu uma prova de 12 quilómetros no Campo Grande, em Lisboa, e mais tarde conquistou o título de campeão mundial dos 500 metros, na cerimónia de inauguração do Velódromo de Chamartin, em Madrid.

Chegados aqui, então já com bicicletas mais evoluídas, mas bastante pesadas, com mais de 16 quilos, o ciclismo expandiu-se nas suas vertentes de recreio, turismo, transporte e de competição. Essa expansão e a cada vez maior tendência para a prática competitiva, levaram à fundação da União Velocipédica Portuguesa, organismo oficial que tomou em mãos a gestão do nosso ciclismo que até aí vinha sendo controlado pela União Velocipédica Espanhola e por alguns clubes portugueses.

Nessa fase de arranque das competições, salientaram-se, entre outros praticantes, além dos já citados, Gomes Mascarenhas. Jorge Malheiros, Artur Oliveira e Jorge Norton, entre outros, mas é justo referir que entre os adeptos da modalidade se contavam importantes figuras públicas como Sousa Júnior (bacharel), Carlos Malheiros (poeta), Mário Duarte (diplomata), Conde de Paço Vieira, os intelectuais da época dr. João Calazanas e dr. Eduardo Monteiro, e os actores Jorge Grave, Inácio Monteiro e Pato Moniz.

A maior parte das actividades decorriam então em pistas e velódromos, muitos deles improvisados, em terra batida, com poucas condições para a competição. Da extensa lista de instalações dessa natureza merecem destaque o Velódromo D. Carlos, em Algés, inaugurada em 21 de Junho de 1888, Velódromo D. Amélia, no Porto, inaugurada em 24 de Junho de 1894, Velódromo de Palhavã, em Lisboa, inaugurado em 14 de Maio de 1905, e muitas outras pistas, como a de Carrancas e Devezas, no Porto, e em Barcelos, Oeiras, Cascais, Cuba, Viana do Castelo e Caldas da Rainha e mais recentes em Alpiarça, Malveira, Sangalhos, Loulé e Tavira.

A fundação da União Velocipédica Portuguesa:

Na sequência de uma reunião realizada nos primeiros dias de Dezembro de 1899, para estabelecer o caminho a seguir na organização da projectada União Velocipédica Portuguesa, ficou decidido formar uma Comissão Instaladora que veio a ser aprovada no dia 14 desse mês, em nova reunião na Rua do Crucifixo, 19 – 1o, sede do jornal “O Tiro Civil”, com a seguinte composição: Conde de Caria-Berrnardo (Presidente), A. Magalhães Peixoto (Tesouraria), Anselmo Sousa (Vice-presidência), Carlos Calixto (Secretário) e ainda Alfredo da Costa Campos, dr. Jaime Neves e Luís Magalhães Fonseca (Vogais).

Conde de Caria, fundador da UVP

Em 1901, presidida por Luís Trigueiros, reuniu-se pela primeira vez a assembleia geral da UVP, na sede da Associação Comercial dos Lojistas de Lisboa, tendo sido aprovados o Relatório e Contas da Comissão Instaladora, e eleitos os seus primeiros corpos gerentes. Os primeiros Estatutos só vieram a ser aprovados em 1902.

Nos 45 anos que decorreram até ser adoptada a designação de Federação Portuguesa de Ciclismo, situação que ocorreu em 1 de Janeiro de 1944, a União Velocipédica Portuguesa desenvolveu uma intensa actividade, primeiro com os clubes já existentes nessa data, tais como, entre outros, o Real Ginásio Clube (actual Ginásio Clube Português), Real Clube Velocipédico Português, Velo Clube de Lisboa, Ciclo Clube de Coimbra, Real Veloclube do Porto e Ginásio Clube Aveirense, aos quais se juntaram muitos outros, com destaque para o Ginásio Setubalense, Ciclo Clube Caldense, Ginásio Figueirense, Sport Clube Bombarralense, Sport Lisboa e Benfica, Sporting Clube de Portugal, Belenenses F.C. e Ateneu Comercial de Lisboa.

A partir de 1919 filiaram-se o Sport Lisboa e Faro, F.C. Porto, Académico

F.C.,Os Leões de Ferreira do Alentejo, G.D. “A Iluminante”, Sangalhos Sport Club, Salgueiros F.C., Alpiarça Sport Club e C.D. Malveira, clubes que fizeram história no ciclismo português.

UVP sai reforçada com a passagem a Federação:

Sediada no no 39, 1o andar, da Rua Barros Queiroz, em Lisboa, a União Velocipédica Portuguesa saiu reforçada ao juntar à sua designação o título de Federação Portuguesa de Ciclismo em resultado da legislação desportiva posta em vigor no dia 1 de Janeiro de 1944.

A UVP-FPC manteve-se largos anos nas exíguas e inapropriadas instalações da Rua Barros Queiroz de onde saiu, em Junho de 1993, para a actual sede/secretaria na Rua de Campolide, 237, em Lisboa, em imóvel cedido pela Câmara Municipal de Lisboa em resultado de negociações conduzidas, junto da autarquia, pelos dirigentes Artur Manuel Moreira Lopes e Henrique Castro.

Depois de importantes obras as novas instalações dispõem hoje de condições que lhe permitem desenvolver uma mais profícua actividade que conduziu a modalidade a patamares de desenvolvimento e aperfeiçoamento só possíveis com um trabalho em profundidade em todas as vertentes da prática do ciclismo de competição e de lazer.

Ao receber o estatuto de Federação, a UVP contava mais de 400 sócios individuais e dispunha de uma larga rede de 53 delegados por todo o país e cerca de duas dezenas no estrangeiro. Desde então, e em particular nos últimos anos, tem vindo a ser alargado o quadro competitivo com um calendário de provas para todas as categorias, e reforçada a actividade a nível de selecções nacionais, agora com o apoio da Liberty Seguros, sendo melhorado substancialmente o nível técnico/organizativo da Volta a Portugal e restantes corridas. Foram dinamizadas as actividades do BTT e BMX, e dada nova dimensão às Escolas de Ciclismo com uma rede que corresponde aos objectivos propostos no plano de formação, sendo ultimamente relançada a actividade competitiva no ciclocrosse, ao mesmo tempo que se abriram novos horizontes ao ciclismo para todos em especial no cicloturismo.

Na sequência de toda esta actividade dinamizadora do nosso ciclismo, com grande envolvimento das Associações, dos Clubes e dos patrocinadores, despontaram grandes campeões que marcaram épocas bem definidas, tais como, entre outros, António Augusto de Carvalho, vencedor da 1a Volta a Portugal em 1927, José Maria Nicolau, Alfredo Trindade, Alves Barbosa, Ribeiro da Silva, Joaquim Agostinho, Fernando Mendes, Marco Chagas, Joaquim Gomes, Orlando Rodrigues, Vítor Gamito, Cândido Barbosa, José Azevedo e Sérgio Paulinho.

Por último, foi possível concretizar a construção do Velódromo de Sangalhos/Anadia, um equipamento realizado segundo as técnica mais modernas, um ambicioso projecto que só foi possível implementar com o sempre disponível apoio estatal e a preciosa colaboração da autarquia de Anadia. Esta infra-estrutura vai permitir desenvolver um trabalho em profundidade no tão carenciado ciclismo de pista ao mesmo tempo que prestará à alta competição de outras modalidades um importante contributo como Centro de Alto Rendimento.

Galeria dos presidentes:

Em resultado das pesquisas realizadas em toda a documentação existente na UVP-FPC e em fontes exteriores onde seria natural encontrar resposta às lacunas encontradas na lista dos presidentes que estiveram à frente dos destinos da modalidade, apenas foi possível construir a “Galeria de Presidentes” que a seguir se apresenta.

  • Bernardo Homem Machado (Conde de Caria) fundador da UVP (de Dezembro de 1899 a Março de 1911)
  • Dr. José Pontes (1911 a 1912)
    António Nunes Soares Júnior (1913 e 1914)
  • J. J. Mendes Arnaut (de 14/05/1914 a Março de 1929)
  • Carlos Alberto Simões (de Abril a Junho de 1929)
  • Mário Nunes de Carvalho (de Setembro a Dezembro de 1929) – Vítor Alves (de Janeiro a Abril de 1930)
  • Pedro José de Moura (de Maio a 27 de Junho de 1930)
  • Benvindo Cardoso (1931 a 1933)
  • Álvaro de Oliveira (1934/35 e 1949)
  • Raul Vieira (1935/36)
  • Manuel Mota (1945)
  • Pita Castelejo (?)
  • Vicente Paulo Martins (1955/66)
  • Idalino de Freitas (1967 a 1973/74 e 1975/76)
  • Fiel Farinha (1974)
  • Mário Ferreira (1976/83)
  • Henrique Castro (1984/92)
  • Artur Manuel Moreira Lopes (Dezembro de 1992 até ao presente)

Não foram encontrados registos dos períodos de 1937 a 1944 e de 1946 a 1954.

Guita Júnior (Março de 2011)